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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Aceite inimigos no Facebook

Por LUÍS ANTÔNIO GIRON
 
Fonte: Google Imagens
Sabe aquela pessoa insuportável e perigosa que você quer ver pelas costas? Pois ela está esperando que você a aceite como amiga no Facebook. O que fazer, ignorar o pedido ou seguir o twitter @Jesus e oferecer a outra face? Dias atrás a saia-justa se deu comigo: um velho adversário, que já tentou me prejudicar muitas vezes e hoje se faz de zumbi, apareceu na lista de solicitações de amizade. Então me veio a dúvida. Se recuso a pessoa, ela pode se sentir ofendida, e tratar de me prejudicar ainda mais do que já obrou no passado. Caso eu a acolha, irá vasculhar minha vida, meus detalhes, conhecer meus amigos de verdade e os nem tanto, vistoriar meus atuais pontos fracos. Pensei: eis aí um típico dilema “se correr o bicho pega, se correr o bicho come”.

Como já insinuei no título e no subtítulo desta crônica, decidi aceitar o oponente para ver no que dava. Posso correr o risco, até porque não há o que ocultar, pelo menos em uma rede social onde todos estão expostos. Talvez eu tenha sido tomado pela esperança de um dia me reconciliar com o inimigo em questão, porque não sou rancoroso, nem vingativo. Afinal, foi ela quem pediu, não eu. Podem me chamar de fraco por eu ainda acreditar no perdão. Até agora meu inimigo e eu vivemos em harmonia total: ele até “curtiu” um post meu recentemente. Caso o de novo “amigo” sacaneie, posso transportá-lo para o mundo medieval e aniquilá-lo no jogo NanoStar Siege, cujo slogan é: “Destrói os teus inimigos no Facebook!” Brincadeirinha... Entendo aqueles que sinceramente se recusam a dar boas-vindas a quem julgam não ser merecedor do privilégio. De minha parte, resolvi me expor para poder refletir melhor sobre esse fenômeno estranho que é a invasão da privacidade e a consequente abolição da solidão pela internet – situações que têm no Facebook seu limite mais movediço.


Por sua própria natureza, o Facebook se tornou um terreno eticamente esterilizado e seguro. Nunca mais o sujeito vai ficar só. Essa perspectiva pode ser tão consoladora como horrorosa. Alguém já tentou meditar no total isolamento dentro da rede social? Juro que até tentei, mas a operação quase transformou meus amigos reais em criaturas abelhudas. Comecei a eliminar gente de minha lista, e me tornei antipático para mim mesmo. Desisti de iniciar discussões pela rede – e reincorporei os eliminados. O Facebook et alii não permite desavenças, confrontos nem discussões. Quem figura na lista de “amigos” do dono da conta está ali por alguma afinidade eletiva, ou uma situação nova: a afinidade concedida. A prática da discordância é evitada, quase como um tabu. É vedado exasperar-se com alguém. Não são possíveis as opções “aceite” ou “rejeite” um inimigo. Ou você diz sim ou então bloqueia, e a pessoa ficará sabendo. Ora, isso gera a pior das coerções: a da autocensura. O usuário pensa: “Não posso parecer crítico, furioso ou antissocial em público.” E aceita todos que fizeram a solicitação. Ser seletivo também se torna impraticável: quando o usuário se inscreve já é capturado pelas relações que mantém com a família, com os amigos, os conhecidos e os desconhecidos íntimos, que, no caso do jornalista, conhecem-no por leitura ou referência. Nesse sentido, o Facebook dá lições de tolerância e contenção. Mas também se revela um ambiente artificial. Não é um espelho do mundo, e sim uma distorção positiva do mundo. O Facebook é o sorriso da sociedade, não o esgar ou o ódio. O potencial negativo é tragado pela ação da positividade.


Dessa forma, os integrantes da rede social buscam a satisfação imediata de seus desejos, inclusive o desejo de amizade e sexo. É um processo instantâneo, como o de comprar algo pela internet. Aceitar um amigo na lista significa compra-lo, e de graça, como muitos aplicativos do Android e da Loja Apple. Quem tem mais amigo pode se tornar o rei da popularidade. Mesmo que o preço seja, no fundo, colecionar nomes vazios de sentido, algo parecido com o que alguns aplicativos prometem sem cumprir ou mesmo o que muitos políticos fazem de seus eleitores. No Facebook, prometemos uma amizade que talvez não possamos cumprir jamais. Assim como evitamos uma inimizade que somos incapazes de transformar no seu contrário. Isso me leva a crer que a amizade e seu inverso exerçam ali o mesmo tipo de força, um ímpeto de anulação de todas as contradições possíveis. O amor e o ódio se equivalem nas redes sociais.


Por isso, soa perigosamente presunçosa a fala de Sean Parker (Justin Timberlake), sócio minoritário do Facebook, no filme A rede social: “Conseguimos realizar a perfeita digitalização da vida social”. Claro que uma rede social não espelha a vida. Mas ela pode substituí-la. E isto me preocupa mais do que o suposto caráter estéril da vida que redes como o Facebook prometem. O que me apavora é a ilusão que causam em muitas pessoas. Há crianças, adolescentes e adultos de tal modo entranhados na internet que a vida fora do ambiente digital se lhes tornou impossível. Ali eles resolvem todos os problemas, até porque todos os problemas se encontrem resolvidos de antemão. É como se acostumar a um ambiente hostil e acabar se gostando dele. A capacidade infinita que o ser humano tem de se iludir é incrível. E a masmorra hipercolorida, mais brilhante que o real e repleta de novidades e ofertas pode lembrar um paraíso para multidões. Com no filme Matrix, em que colônias humanas vivem dormindo, ligadas a ventosas eletrônicas de um sistema totalitário que passa por democrático. Mas agora as correntes que prendem as pessoas já não são feitas de ferro. São sem fio, correntes wireless, wi-fi com banda larga, intangíveis, invisíveis e, portanto, mais poderosas do que nunca.


Estamos experimentando formas de vida e jogos de linguagem inéditos. Nesse nada admirável porém espantoso mundo novo, o inimigo não ataca mais de frente. Ele se insinua como um vírus, às ocultas, até que a presa perca os parâmetros do que é certo ou errado. A contrapartida é que agora todos podemos nos transformar em vermes virtuais. Viramos seres impalpáveis, que transitam ao redor do mundo sempre à espera de uma resposta imediata, sem sentir as consequências de nossos atos. Os gestos que realizamos se afiguram a um só tempo inextensos e eficientes, numa corrente imprevisível de hiperinformação. No livro 44 cartas do mundo líquido moderno (Editora Zahar, 228 páginas, R$ 24,00), o polonês Zygmunt Bauman, talvez o mais arguto analista da vida contemporânea, afirma que a humanidade trocou de pesadelos: o de nossos pais era o da informação insuficiente; o nosso é o “pesadelo ainda mais terrível da enxurrada de informações que ameaça nos afogar, nos impede de nadar ou mergulhar”. Daí a necessidade de sermos seletivos em relação ao que absorvemos pelas redes. Talvez não compense ter um bilhão de amigos simulados que nunca sairão da condição de potência.


Por causa da exacerbação dos sentidos e do excesso de informação, os críticos do Facebook acusam-no de ser uma fonte de falsidade, capaz de alienar o usuário da vida real, dos sentimentos verdadeiros e do contato com a natureza. Não vejo assim. Para mim, as redes sociais podem ser compreendidas como uma distorção coerente e eficaz da realidade. Elas recriaram no mundo digital uma nova e fascinante realidade, ainda que imperfeita, não raro digitalmente selvagem. Os ingênuos caem como patinhos no vórtice infinito de “amigos”. Os mais espertos tiram proveito de uma miragem que se revela cada vez mais presente em nossas vidas. Isso porque somos sujeitos ativos e temos a capacidade de alterar a realidade onde atuamos, mesmo que esta realidade seja construída sobre eletromagnetismo. Basta notar como os usuários transformamos o twitter. Eu gostaria de fazer parte da turma dos lúcidos. Por uma operação sutil, tentei criar para mim um sistema que permite que me esquive quanto mais me exponha no Facebook. Que @Jesus me perdoe, mas não acho que deva oferecer a outra face para que o rival bata nela. Mas posso permitir que o inimigo se aproxime para melhor despistá-lo. Afinal, tornou-se impossível fugir da solidão neste outro universo. E, já que nele não podemos mais ficar sós, precisamos nos acostumar a viver mal acompanhados. 

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