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sábado, 13 de agosto de 2011

“A web será nossa bolha”

Os filtros de busca na internet vão nos viciar em nossas próprias ideias. E darão fim a uma das melhores coisas da rede: ser um espaço diverso em que se encontra até o que não se procura. É o que diz o ativista político Eli Pariser

por Leonardo Martins 
 
O ativista político americano Eli Pariser percebeu que sua página de Facebook estava democrata demais e que seus amigos republicanos andavam quietos. Após esmiuçar as configurações da rede social, descobriu que o site, baseado em seu histórico de cliques, diminuía a aparição de publicações que não seguiam seus pontos de vista. O caso ilustra o que Pariser — fundador da comunidade antiterrorista MoveOn.org e do New Organizing Institute, que treina pessoas para ações políticas na web e fora dela — considera o novo e preocupante paradigma da internet: o excesso de personalização.

Nessa tendência, O Grande Irmão da rede é fundamental. Desde 1997, o Google desenvolve a PageRank, ferramenta que aplica mais de 200 algoritmos para saber exatamente o que queremos encontrar quando fazemos uma busca. Ele analisa cada letra, o contexto e até o lugar onde o usuário está. “Esse tipo de personalização se baseia no que já fizemos, não no que ainda queremos fazer”, diz o ativista.


Pariser teme que o excesso de filtros enfraqueça a vocação da web para diversidade e troca de ideias. Essa tese está em seu novo livro The Filter Bubble — What the Internet is Hiding From You (A bolha dos filtros — O que a internet está escondendo de você), sem edição no Brasil. Para o ativista, a previsibilidade na web nos viciará nas mesmas ideias e impedirá de discutir questões diversas: seu admirável mundo novo só terá pessoas iguais a você.


* O que é a bolha de filtros?

Eli Pariser: Costumamos ver a internet como uma enorme biblioteca em que os sites de busca nos dão o mapa a ser seguido. Na verdade, não é o que acontece. Não só o Google, mas também redes sociais como Facebook e portais de notícias, como Yahoo! News e o NYTimes, estão cada vez mais personalizados. Eles filtram as informações para mostrar para cada pessoa o que acreditam que elas querem ver — e que pode ser bem diferente do que elas precisariam ver. Esses filtros acabam criando uma bolha, um universo único e pessoal de informações que pode viciar nossas ideias. O excesso de personalização enfraquece a proposta original da internet, de ser um espaço aberto e democrático. Deixa-nos em um mundo isolado com nossa própria voz ecoando.

* Os dez sites mais visitados dos Estados Unidos corresponderam, em 2010, a 75% de todo o tráfego da internet naquele país. Isso mostra que estamos presos às mesmas fontes de informação?

Pariser: Antes da internet acreditávamos que os editores dos jornais e os produtores de televisão decidiam o que precisávamos saber. Quando a web surgiu, esse mito caiu. Pensou-se que esses imponentes guardiões da informação não existiriam mais. Não foi bem assim. A maior parte da informação que consumimos na internet hoje vem de pouquíssimas empresas — Google e Facebook são as mais importantes no momento. Essas duas companhias têm enorme poder de determinar o que sociedades inteiras prestarão atenção. Mas essa influência é invisível.

* Existe uma maneira mais clara de conduzir o usuário, sem impedir que ele navegue livremente?
Pariser:
Há várias formas das grandes empresas continuarem o que estão fazendo, mas de forma mais transparente. Por exemplo, colocar uma barra no topo das páginas. Em um canto estariam os “resultados para pessoas que se parecem com você”. Do outro, “resultados para pessoas que não se parecem com você”. Assim, o usuário teria a autonomia de decidir para que lado ir — ou clicar nos dois para ver ideias diversas e encontrar o equilíbrio.

* Mas, com a quantidade e diversidade de informação que temos hoje na rede, como garantir acesso rápido ao que se procura?
Pariser:
Não sou contra os filtros personalizados. E, mesmo que fosse, acredito que eles seriam inevitáveis, pois há muita informação para ser filtrada. Nós precisamos da ajuda desses códigos. Mas essas ferramentas devem ser construídas para nos informar de forma genuína — não apenas para nos manter compulsivamente entretidos ou aprisionados em uma bolha com nossos próprios pontos de vista.

* Quais as consequências de uma geração que só ouve e lê o que lhe agrada?

Pariser: Uma delas é a fragmentação: o mundo que cada um de nós vê se parece cada vez mais com o nosso próprio mundo. O resultado disso é que aquilo que chama atenção para uma pessoa é cada vez mais diferente do que é importante para outra. Assim, nos tornamos cada vez mais isolados. Fica difícil identificar ou resolver grandes questões públicas, que afetam a todos, porque não estamos todos prestando atenção nelas. Outra consequência é o que chamo de informação fast-food. Filtros personalizados são criados para nos mostrar conteúdos similares aos que mais costumamos acessar. Mas isso não significa necessariamente que aquelas são as coisas mais importantes para nós. Muitas vezes, são links triviais ou sensacionalistas em que clicamos por mera curiosidade. No site americano de aluguel de filmes Netflix, por exemplo, os blockbusters são rapidamente acessados e assistidos, enquanto tramas mais densas ficam para trás. Isso porque existe um conflito entre nossa impulsividade e aquilo que realmente gostaríamos de ser. Afinal, todos nós queremos ser alguém que assistiu a Rashomon (clássico de 1950 dirigido pelo cineasta cult japonês Akira Kurosawa) mas, talvez, em um determinado momento, por um motivo qualquer, preferimos assistir pela quarta vez a Ace Ventura (comédia com Jim Carrey, de 1994). Os algoritmos que levam em consideração esses impulsos acabam deixando o mais superficial e descartável no topo. Em vez de termos uma dieta balanceada de informação, ficamos apenas com a gordura e o açúcar.

* É possível escapar da bolha?
Pariser:
Difícil. Desativar itens como os cookies de seu browser, que ajudam a identificar de onde você acessa a internet, não resolve muito. O Google personaliza sua experiência de busca mesmo sem saber exatamente sua posição geográfica. Ele utiliza vários outros sinais, como o tipo de máquina que você usa, para criar uma personalização. Há tecnologias em desenvolvimento que tornarão possível criar uma espécie de impressão digital para cada aparelho com acesso à internet. Assim, os sites poderão saber de qual computador ou smartphone o usuário está acessando a página, mesmo que ele não tenha feito login em conta alguma. Por isso, a discussão é mais sobre a responsabilidade que essas empresas têm com tanto poder nas mãos e sobre a necessidade de os governos as fiscalizarem. Precisamos que a internet viva sua promessa original de conectividade. A web pode nos ajudar a solucionar problemas globais, como mudanças climáticas, que não podem ser resolvidos por uma ou duas pessoas, mas requerem a participação de várias sociedades unidas. Isso não vai acontecer se todos nós estivermos isolados em uma internet de uma pessoa só.

Fonte: Galileu
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