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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Artistas apostam em aplicativos musicais

Já vai longe o tempo em que discos eram apenas discos. Os lançamentos vêm, hoje, atrelados a apps hightech


Cultura e tecnologia movem-se atreladas - é o que gritam as letras do Kraftwerk, em suas rimas de homem e máquina. Vamos a 1948: um grupo de pesquisadores da Columbia Records desenvolveu o disco de vinil, no qual cabiam mais músicas que o antigo 78 rotações, e criou assim, por tabela, um novo conceito artístico: o álbum, um grupo de canções conceitualmente reunidas, passando uma ideia, contando uma história. Corta para 2011: Após uma década ameaçado pela fragmentação do MP3, o álbum experimenta uma revalorização (o culto ao vinil, a edição de shows voltados para discos clássicos). E Björk lança "Biophilia", tomado como o marco inaugural de um novo formato: o álbum-aplicativo, uma nova experiência de audição de um grupo de canções (não linear, com possibilidades interativas, obras abertas). Uma leva de recentes projetos - de Brian Eno a João Nogueira, de Lady Gaga a Makely Ka, de Beyoncé ao baiano Gilberto Gil - mostra que a trilha aberta pela islandesa pode ser uma possibilidade real de futuro da gravação.

A cantora Bjork foi uma das primeiras a investir em álbuns atrelados a aplicativos, com seu mais recente lançamento: interatividade e aproximação com os fãs

Desenvolvedor de "Biophilia", o americano Scott Snibbe defendeu, na época do lançamento, que o novo formato permitirá que se volte a ouvir música com atenção: "O conceito de imersão na música remonta a um ato bastante simples, que acontecia quando pegávamos um disco de vinil e o escutávamos, olhando o encarte e lendo as letras. ´Biophilia´ é uma experiência em torno desse conceito. A diferença é que agora o encarte, as fotos, as imagens, tudo está em movimento, tem vida".

A imersão tem um apelo lúdico também. No novo aplicativo de Calvin Harris, por exemplo, o usuário pode ouvir seu mais recente disco ("18 months") na íntegra, em streaming. Mas só enquanto estiver dançando. Parou de mexer, a música para de tocar - um convite sutil e divertido ao ouvinte para que compre o álbum "real" caso queira simplesmente ouvi-lo.

Scott Snibbe também assina o recém-lançado aplicativo da banda Passion Pit. "Gossamer", definido como um EP-app, traz quatro experiências interativas diferentes que podem ser feitas com as canções "Take a walk" e "Carried away". Tocando na tela, de forma intuitiva, o fã tem a chance de abrir e fechar camadas da gravação, adicionar linhas melódicas novas, ao mesmo tempo em que altera, num efeito caleidoscópico, a imagem que se vê na tela. "O álbum-aplicativo é uma possibilidade ótima. A trajetória da música gravada mostra que ela é movida pelos novos formatos, interfaces, é algo sempre positivo", defende André Midani, importante executivo da história da indústria fonográfica brasileira, sem arriscar prognósticos. "Saber se o álbum físico vai dar lugar a qualquer tecnologia passa por entender o desejo que as pessoas têm de posse de um objeto. Isso é mais assunto para um analista do que para um produtor".

Brian Eno, que acaba de lançar "Scape" (aplicativo que, ainda mais radical que os citados, permite criar composições inteiramente novas a partir das peças isoladas de músicas do produtor), identifica no novo formato uma mudança no papel do artista e do ouvinte. Em sua analogia, segundo disse em entrevistas, o compositor antes era um arquiteto, que pensava cada detalhe de seu prédio e agora tem um ofício que se assemelha mais ao de um jardineiro, que lanças as bases mas não tem o controle total.

Mais que algo voltado para o experimental ou indie, o álbum-aplicativo permite ferramentas (interações com redes sociais, fotos e vídeos extras) que falam diretamente com o fã da grande música comercial. Beyoncé usa recursos como esse em seu "Live at Roseland". Lady Gaga anunciou que seu próximo álbum, "Artpop", previsto para 2013, será lançado no formato, com acesso a chats, clipes para todas as músicas e jogos.

Iniciativas nacionais

No Brasil, destaca-se o aplicativo de Gilberto Gil, que permite que se ouça e se crie playlists a partir de todos os álbuns de sua discografia. O "Sambabook" de João Nogueira também é uma experiência interessante, com informações sobre os artistas e sobre como tocar suas músicas.

"O aplicativo traz as letras com cifras para o fã", conta Flávio Pinheiro, diretor executivo da Musickeria, criadora da "Sambabook". - No próximo, de Martinho da Vila, a pessoa terá também a possibilidade de, ao lado da cifra, poder tocar a música deixando mudo o canal do instrumento que ele vai tocar. Ou seja, é como se ele substituísse, por exemplo, o cavaquinista da banda.

O mineiro Makely Ka, que produz seu disco "Cavalo motor" no formato, chama a atenção para outras de suas possibilidades. "Na medida em que vou gravando, "subo" as faixas e disponibilizo os arquivos em diferentes etapas do processo. O público a acompanha, como um work in progress. Estamos desenvolvendo uma ferramenta de geolocalização integrada a uma rede social própria, que vai permitir ao usuário descobrir e se conectar com outro ouvinte que baixou o aplicativo e mora na mesma cidade".

Criado por Björk com seu "Biophilia", o conceito de álbum-aplicativo ganha cada vez mais adeptos, que oferecem ao ouvinte possibilidades como a de interagir com as canções, apontando um caminho para o futuro da música

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