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segunda-feira, 15 de julho de 2013

Tecnologia 3D entra em declínio

Lançado nas TVs em 2010, o recurso de imagens tridimensionais não vingou e agora apenas sobrevive

Há pouco mais de três anos, a tecnologia 3D parecia ser a vedete nas salas de cinema, aparelhos de TV, consoles de videogames, câmeras digitais e até telefones celulares. Mas, depois de um "boom" marcado por grandes produções cinematográficas - como "Avatar", de James Cameron - e televisivas - com as transmissões das Olimpíadas de Londres em 2012 -, a tecnologia está caindo no ostracismo. Alegando falta de interesse do público, neste mês de julho duas grandes emissoras mundiais que apostavam na tecnologia, a britânica BBC e a norte-americana ESPN (do grupo Disney), estão fechando seus canais dedicados às imagens tridimensionais.

A escassez de conteúdo, o preço alto dos aparelhos e a necessidade de usar óculos especiais para ver as imagens são os vilões da tecnologia 3D

A desistência desses grandes nomes de apostar no 3D confirma o fracasso das TVs com esta tecnologia. A escassez de conteúdo tridimensional, o preço alto dos aparelhos e a necessidade de usar óculos especiais para ver as imagens são os vilões mais citados. O problema sofreu um efeito de ciclo vicioso: as produtoras não criam conteúdo em 3D por conta da baixa adoção desse tipo de aparelho, enquanto o consumidor não compra o aparelho por falta de conteúdo atraente.

Kim Shillinglaw, diretora de 3D da BBC, diz, no site de notícias da emissora, que a audiência desse tipo de programa nunca decolou e que o público acha as imagens tridimensionais incômodas. Nos países onde a aposta na tecnologia foi alta, os resultados não empolgaram já no início. No Reino Unido, a BBC iniciou as transmissões em 3D em 2011 e teve seu pico nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. No entanto, somente a metade do total de 1,5 milhão de televisores com este recurso utilizou a novidade para assistir ao evento.

Nos Estados Unidos, os nove canais a cabo que exibiam programas com imagens em três dimensões só conseguiram reunir 120 mil telespectadores. A ESPN, que vai fechar seu canal 3D, transmitia cerca de 140 programas por ano com esta tecnologia. Foram 380 eventos esportivos transmitidos em terceira dimensão, mas o canal jamais atingiu números significativos o suficiente para aparecer nas estatísticas da Nielsen, empresa que mede a audiência da televisão nos Estados Unidos. Outra companhia, a SNL Kagan estimou recentemente - em matéria no New York Times - que o número de assinantes ficava longe de atingir um milhão.

No Brasil, a tecnologia também não deslanchou para as telinhas da sala de estar a ponto de merecer registros de audiência. A primeira transmissão de TV ao vivo em 3D no país foi realizada pela Rede Globo em parceria com a operadora de TV a cabo NET e ocorreu no dia 15 de fevereiro de 2010, com a exibição do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Para o funcionário público cearense Valdecy Pedrosa, um aficionado por tecnologias audiovisuais, o 3D nunca chegou a despertar seu interesse. "Se você quer reunir 20 amigos para ver um filme, tem que ter 20 óculos. É inviável", diz, lembrando ainda que para cada padrão 3D há a necessidade de ter óculos específicos. Para Valdecy, que nunca chegou a ir a uma sala de cinema para uma exibição em três dimensões, este recurso não faz falta em seu equipamento de home theater.

Cinema resiste

"Assistir televisão em 3D é uma experiência desgastante em casa. Primeiro você precisa encontrar os óculos antes de começar a ver TV. Acredito que no cinema elas estejam mais dispostas", admite a diretora de 3D da BBC, Kim Shillinglaw. Mas, mesmo no cinema, o formato parece ter cansado o público. No ano passado, a indústria cinematográfica lançou 36 filmes com imagens tridimensionais. O número foi 20% menor do que o total de títulos em 3D apresentados ao público em 2011, ano em que a tecnologia atingiu o auge no cinema, segundo a Motion Picture Association of American.

"O 3D com óculos está morto", diz o chefe de tecnologia do canal a cabo HBO, Bob Zitter, citado pelo jornal espanhol El País. Para a fabricante japonesa Panasonic, a culpa do fracasso das TVs 3D recai sobre Hollywood. "Os estúdios danificaram o formato, correndo para lançar tantos títulos mal convertidos, desde a estreia de Avatar", afirmou Andrew Denham, o diretor de marketing da companhia, à revista Wired. Em declaração ao site Hollywood Reporter, o diretor de animação da Dreamworks, Jeffrey Katzenberguer, reconhece a parcela de culpa da indústria cinematográfica. "Nós decepcionamos o público diversas vezes com vários filmes ruins, então acredito que agora exista uma desconfiança genuína, enquanto há um ano e meio tínhamos interesse e excitação", diz o executivo da Dreamworks.

Novas atrações

Apesar do fiasco, o recurso 3D continua presente nos aparelhos de TV que estão sendo lançados. Alguns fabricantes até se esforçaram em levar para a tela de seus aparelhos tecnologias que não exigissem que os usuários estivessem com os estranhos óculos no rosto para desfrutar de imagens realistas em três dimensões no conforto do lar. Mesmo assim, a tecnologia não passou de uma febre passageira. Hoje, os fabricantes focam em recursos decorrentes das TVs conectadas à internet e em novidades como as telas de ultra alta definição (ultra HD) ou 4K, capazes de exibir imagens quatro vezes mais nítidas do que os modelos atuais full HD.

Exposição pode causar a ´3D fobia´

Além de incomodar o usuário no momento em que ele mais deseja relaxar e curtir um filme em casa, os óculos especiais exigidos pela tecnologia 3D podem até ser prejudiciais. Em matéria publicada no Tecno em 2010, no auge da febre da tecnologia, o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto já alertava para o fato de que a exposição à projeção 3D pode aumentar em até 10 vezes a fadiga visual comumente experimentada pelo usuário em frente ao computador.

"Muitos pacientes relatam que após 10 minutos assistindo a um filme 3D já começaram a sentir desconforto visual e dor de cabeça, sintomas que só ocorrem depois de duas horas de trabalho no computador", diz oftalmologista. O desconforto acontece porque a visualização 3D nas telas é formada por duas imagens deslocadas horizontalmente. Como todas as imagens estão no mesmo plano, para termos visão de profundidade, nossos olhos são submetidos a um maior esforço, que exige um trabalho extra do cérebro. Este esforço causa a "3D fobia".

Não é à toa que a fabricante Nintendo, que lançou o aparelho de videogame portátil com a tecnologia, o Nintendo 3DS, recomenda aos jogadores pausas a cada 30 minutos de jogo. O aparelho, lançado em 2011, dispensa óculos especiais para reproduzir os efeitos em três dimensões.

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